POESIA, ARTES VISUAIS E RELACIONAMENTO INTERCULTURAL: TUDO EM UMA OBRA

Michely Araújo

ampião & Lancelote inaugura a carreira de escritor do até então renomado ilustrador e artista plástico Fernando Vilela.

Inusitado e extremamente original, o livro é todo escrito em literatura de cordel e ilustrado com uma técnica que utiliza a xilogravura e carimbos esculpidos em borracha.


Um dos Cavaleiros medievais da Távola Redonda do rei Artur se encontra com o nosso famoso cangaceiro do sertão nordestino e ambos se desafiam para um embate que se dá em forma de um repente nordestino.

Sob um fundo negro, duas cores reflexivas são utilizadas: prata, para representar Lancelote, pois sua reluzente armadura poderia ter esta cor. O cobre foi a cor escolhida para Lampião, por causa de seus adornos e indumentárias: moedas, anéis, punhais. Além disso, a luz do nordeste lembra o cobre refletido no horizonte seco.

O humor é predominante no momento em que os dois personagens e seus companheiros se encontram. Cada um responderá ao seu modo quando são afrontados: o cangaceiro com seu palavreado popular e o cavaleiro com a sua ostentação característica, sob um cenário de ilustrações inspiradas em iluminuras e pinturas renascentistas.

Ao abrir este livro, o leitor não poderá se impressionar com a beleza plástica deslumbrante, mas refletir sobre como dois universos tão distantes entre si, de tempos e espaços tão opostos são colocados frente a frente.

Lampião & Lancelote traz ainda um glossário de termos e um texto explicativo sobre as referências que Vilela utilizou em sua elaboração. O leitor poderá convidar uma criança para ler junto, ler sozinho ou até mesmo ler para um grupo, mas não se impressione se os olhos, de tão brilhantes, mergulharem nas páginas e se transportarem através do livro para épocas que existiram há muito, muito tempo atrás, e que não voltarão mais.


Lampião & Lancelote: Capa do livro

Lampião & Lancelote
Fernando Vilela
Ilustração : Fernando Vilela
Cosacnaify, 2006

          


Lampião & Lancelote: encontro entre os personagens


Lampião & Lancelote: três páginas interiores

 

DOIS PERSONAGENS E SUAS BIOGRAFIAS

Maria Aparecida de Campos Hernández

AMPIÃO (1898-1938)

Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, nasceu no dia 04 de junho de 1898 e morava com os pais e irmãos numa fazenda no sertão de Pernambuco.

Quando jovem ajudava na lavoura e cuidava dos animais, até tornar-se vaqueiro. Ainda na fazenda, aprendeu a ler, escrever tocar sanfona. Após seu pai ser assassinado, deixou a vida tranqüila da fazenda e juntou-se a um bando de cangaceiros. Temido pelos ricos, passou a ser conhecido como justiceiro pelos os pobres.

Forte e corajoso, orientava o bando a invadir sítios, fazendas e locais onde pudesse roubar, garantindo assim o sustento do grupo e dividindo o que sobrasse com os pobres. Viajando de um estado para outro, conheceu Maria Bonita, que ficou conhecida por ser a primeira mulher a fazer parte de um grupo de cangaceiros.

Lampião liderou o cangaço durante anos. Perseguido pela justiça,  morreu durante uma emboscada, na fazenda Angicos, no estado de Alagoas em 28 de julho l938.

ANCELOTE

Sem documentação histórica, muitas lendas e mitos medievais ultrapassaram os séculos e ainda são apreciadas nos dias de hoje.

Um dos personagens mais conhecidos dessa novela de cavalaria medieval foi Lancelote.

Segundo a lenda, Lancelote era filho do rei Ban Benwick e da rainha Elaine. Raptado pela Dama do Lago, cresceu e aprendeu utilizar armas, até que tornou-se um hábil cavaleiro.

Lancelote ficou conhecido por suas virtudes e também como justiceiro. Tornou-se cavaleiro da Távola Redonda e lutou para defender o rei Arthur e a rainha Guinevera.

Guinevera foi dona do coração de Lancelote mesmo antes de casar-se com o rei Arthur. Quando seus encontros com a mulher do rei são descobertos pelos cavaleiros da Távola Redonda , Lancelote foi expulso. Depois de alguns anos, casou-se com a filha do rei Pelinore e permaneceu no reino de seu sogro até morrer.

Há controvérsias na lenda, dependendo do autor que a registra, quanto ao nome dos pais, da pessoa que o retira da família, e até se houve um romance entre ele e a mulher do rei Arthur.

LITERATURA DE CORDEL E ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

Cristiane Regina Guilherme Xavier

  maior  taxa de analfabetismo no Brasil está nas regiões norte e nordeste. Uma interessante estratégia para alcançar e facilitar a alfabetização é se valer do contexto  que o aprendiz traz consigo quando chega à escola. A literatura de cordel é muito cultivada nessas regiões, o que a torna excelente material para uso na alfabetização de adultos.


Lancelote, cavaleiro do rei Artur

Paulo Freire fez uso desse recurso para desenvolver seu projeto de humanização na década de 60. Atualmente o projeto “Acorda Cordel” de Arievaldo Viana, poeta, radialista, ilustrador e publicitário cearense vem conquistando escolas da rede pública de ensino nos estados do Ceará, Tocantins, Paraíba e Rio Grande do Norte. Ele conta que foi alfabetizado pela avó que lia os folhetos e depois o ensinou as letras e formar palavras. Isso o tornou a atração de uma mercearia perto da sua casa, pois, lia aos seis anos com incrível habilidade. O projeto conta com um material didático riquíssimo. Um deles, o folheto A Didática do Cordel traz instruções sobre um bom cordel passando noções de rima, métrica e orações.

O interesse nas zonas rurais pelo cordel começou com a curiosidade pelos conteúdos das histórias  que eram lidas nas feiras onde as pessoas iam fazer a compra para passar a semana. Foi assim que o cordel se tornou famoso  e muita gente aprendeu a ler e escrever.

O cordel chegou ao Brasil com os portugueses e instalou-se em Salvador, na Bahia, nossa primeira capital.

Por volta de 1750 apareceram os primeiros impressos desta literatura que é caracterizada pelo modo como a métrica, a rima e a oração são organizadas. A estrofes mais populares são compostas por seis versos, sendo que cada verso tem de 7 a 9 sílabas. Os temas são populares e narram acontecimentos do cotidiano, trágicos ou cômicos. Seu objetivo é contar uma história com começo, meio e fim.

O cordel pode ser um grande facilitador para se trabalhar o desenvolvimento da oralidade e verbalização, compreensão e análise de fatos, raciocínio lógico, noção de rima e métrica utilizado em poesias e poemas. Também coloca o alfabetizando em  contato com outras fontes informativas além dos livros didáticos. Desperta no aluno o gosto  pela diversidade da cultura e arte popular e a  musicalidade . Atrelado à produção desses folhetos está também as ilustrações feitas com a técnica de xilogravura, uma arte que desenvolve a expressão através da linguagem plástica.


Virgulino Ferreira da Silva, Lampião

Imagens:

http://eo.wikipedia.org/wiki/Lampi%C3%A3o

http://www.thewizard.com.br/textos/lancelot.htm


http://www.cosacnaify.com.br/loja/detalhes.asp?codigo_produto=750&language=pt&showPromo=False


http://www.artebr.com/fernando/lilu_lampi.html

http://www.cosacnaify.com.br/noticias/lampiao_lancelote.asp